sábado, 18 de agosto de 2018

Sudeste em nova Crise Hidrica

Mas se passou a última crise hídrica, a Região Sudeste já se vê diante de nova seca. Neste meio tempo, Brasília também amargou um ano em racionamento e o Nordeste, que bem antes já vivenciava a seca, ainda anseia por chuvas regulares. Brasil afora, a lista de cidades em situação de emergência, tanto pela falta como pelo excesso de chuvas, vem se mantendo na casa dos três dígitos (em julho deste ano, 821 cidades devido à estiagem).

O Brasil se apresenta mais seca a cada ano, com estios que parecem passear pelo território e agora arrastam as grandes cidades do Sudeste de volta aos noticiários. Cidades que não param de crescer, incorporando mais habitantes e atividades empresariais a demandar mais água, desafiando a oferta hídrica restrita. E cada vez mais restrita, porque os territórios dos mananciais também não cessam de receber outras tantas atividades humanas, também consumidoras de água.

Por mais que a disponibilidade da água se mostre caprichosa, o Brasil ainda não atentou à necessidade de gerir os recursos hídricos. Assim, deve-se considerar crise hídrica como um dos aspectos decorrentes da crise de gestão renitente em nosso país. Sim, falta água por faltar gestão efetiva, não apenas dos recursos hídricos, mas das florestas e dos solos, atores relevantes no ciclo hidrológico. 

Basta procurar nas imagens do Google Earth: as florestas que recobriam o território nacional, a que domínios foram reduzidas? Isto porque até 2013 esteve vigente o Código Florestal, substituído por uma letra mais adequada a outros interesses que não ao contexto florestal. As florestas remanescentes dão conta de manter o ciclo hidrológico no interior do Brasil? Quais dispositivos o Novo Código Florestal dispõe para a recuperação da capacidade hídrica de nosso solo? 

A Lei das Águas, promulgada há 20 anos, estabeleceu instrumentos e agentes a cargo da efetiva gestão das águas. Por todo o país se estabeleceu comitês de bacia, agências de bacias, conselhos de recursos hídricos,... Aqui, cabe parafrasear um artigo de Yves Besse, publicado o qual afirma que o Brasil de hoje abriga muitas instâncias para agestão da água, mas o "cachorro" está à míngua justamente porque tem muito dono. Yves vê na flata de gestão o motivo pelo qual, no Brasil, se não chove, seca. Se chove, inunda. 

A disponibilidade hídrica está diminuindo, a despeito de todos os dispositivos estabelecidos na Lei das Águas. Da Política Nacional de Recursos Hídricos ali criada ainda se espera resultados mais animadores, capazes de solucionar:
  • a Região Sudeste como palco de crise hídrica crônica;
  • rios importantes como o São Francisco destituídos de sua vazão normal, por anos;
  • a perda do Cerrado, convertido em plantações que não conseguem recarregar água nas cabeceiras dos grandes rios que nascem no Planalto Central¹;
  •  a perda da Floresta Amazônica, que é a principal fonte das chuvas que irrigam boa parte da América Latina, de Cuiabá a Buenos Aires, dos Andes a São Paulo²;
  • não há um único rio a salvo da degradação de nossos centros urbanos e das atividades extrativistas no campo.

Acerca deste último tópico, o próximo texto deste blog abordará reflexões acerca do resgate ambiental dos rios.

- -

Referências:

1 - Correio Brasiliense, "Estiagem prolongada coloca 821 cidades em situação de emergência"

2 - Yves Besse, "De quem é a governança da água?", Gazeta do Povo, 22/02/2017

3 - Altair Sales Barbosa: "O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água", 

4 - Antônio Donato Nobre, relatório do Futuro Climático da Amazônia.

sábado, 20 de junho de 2015

Porque estudar a água

1-      A água é um elemento essencial à vida.  Essencial e pouco conhecido:
·         Onde nascem os rios?
·         Porque alguns rios têm mais água que outros?
·         Como funciona um olho d’água, pelo qual a água brota do solo?
·         Porque chove mais em algumas regiões e menos em outras?
2-      Porque tratamos a água que vamos consumir? De onde vem a água que chega nas cidades, nos campos agrícolas? Indústrias podem fazer uso desta mesma água? Quanta água precisamos para manter nossas casas, escolas, hospitais, escritórios, hotéis, banheiras, piscinas, jardins, pesque-pagues, nossa produção agrícola, pecuária, a mineração, os ecossistemas, a vida aquática? Como garantir o suprimento de água para tantos fins?
3-      E mundo afora, como se consegue água potável? Israel recorre à dessalinização da água do mar. A Nigéria recicla o esgoto doméstico. Diversos outros países tratam a água como questão de segurança nacional, os Estados Unidos inclusive. A Guerra pela Água acontecerá? Uma questão como essa, tida como paranoia ambientalista, já consta em encíclica papal, na qual o Papa Francisco faz eco a essa grave preocupação da comunidade científica.
4-      No Brasil, a água potável é para os usos mais nobres, como a dessedentação humana e animal, mas também à lavagem de carros, animais de estimação, fachadas e calçadas. As cidades crescem desordenadamente, demandando volumes de água cada vez maiores, mas perdas altíssimas na rede de distribuição sabotam esses esforços. Ao mesmo tempo, descuidamos dos mananciais e aquíferos, as fontes do recurso.
5-      Mal completamos 100 anos da instalação dos sistemas pioneiros de abastecimento de água das cidades mais importantes; mal iniciamos este Século XXI, e a natureza já nos cobra as décadas irresponsáveis. Os projetos concebidos por engenheiros brilhantes como os Irmãos Rebouças, afrodescendentes, que atuando em diversas frentes, estruturaram uma nação, apesar de sistemáticas ampliações, hoje lutam para evitar o colapso. De lá para cá, nosso conceito de nação desandou, a ponto de o nosso recurso mais abundante faltar. Era possível imaginar a Grande São Paulo, o esteio da nossa Economia, engatinhando no fluxo do volume morto do ‘deserto’ da Cantareira? Alguém imaginava o Rio Amazonas seco? Que nossos enormes reservatórios hidrelétricos estariam vazios quando mais necessitamos?
6-      O Brasil se tornou um exemplo bem acabado de como colocar a humanidade na emergência da seca. Um país que não mais aspira uma nação, mas a ante-sala da Guerra pela Água.
7-      Onde está a solução? Como responder a esse cenário? A resposta está em Brasília? Está nas sedes dos governos e nas assembleias legislativas? Em parte sim e portanto, a resposta recai na nossa atitude nas urnas eleitorais. Depende então de eleitores bem informados, de uma população bem informada. Depende de uma boa gestão do recurso. Depende de você, que se põe a estudar o tema, porque as respostas certas somente serão formuladas por pessoas inteligentes e que entendam do assunto.
8-      O estudo dos recursos hídricos tem hoje as melhores perspectivas como ciência e na mente de cada um que iniciar este caminho e se apaixonar pela água. Inicia em conceitos básicos como a bacia hidrográfica, o ciclo hidrológico e o balanço hídrico, mas não para por aí. Seja bem vindo à Gestão de Recursos Hídricos.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Como o Brasil venceu a crise hídrica

Está ficando a cada dia mais curioso acompanhar o noticiário da crise hídrica que assola a região Sudeste. Corrida aos supermercados para estocar galões e garrafas do líquido precioso (a preços sobrefaturados), aumento dos preços de alimentos devido à falta d´água,..

As ocorrências mais preocupantes são as que afetam os cidadãos mais indefesos. Foi o caso de uma recém-nascida que, durante um apagão que durou 6 horas, recebeu oxigênio por bombeamento manual, a cargo de enfermeiras que se revezaram nesta tarefa exigida e delicada. A outra notícia ruim foi que as hemodiálises de 15.000 hemofílicos estão sendo precarizadas, por serem procedimentos que demanda muita água.

Mas apenas começamos a tomar conhecimento da real ameaça que paira no ar. As chuvas seguem abaixo da média histórica, mantendo a escassez do recurso hídrico por tempo indefinido, e os reservatórios em situação dramática, a energia elétrica em risco de apagão e o atendimento por água potável prejudicado por vazamentos na rede de distribuição e o consumo desenfreado da parte de muitos usuários, especialmente porque a temperatura global, ano a ano, só faz aumentar. Além disso, a região central do país tende a se encontrar cada vez mais seca, consequência da fronteira agrícola que substituiu o Cerrado, cuja vegetação natural favorecia a recarga dos principais rios e aquíferos nacionais.

Frente a estes fatos, a água já deveria ser tratada como questão de segurança nacional e as ações que poderiam tentar revertê-los já precisavam estar a pleno vapor. Mas os poucos planos disponíveis apenas lidam com a transposição de água entre bacias hidrográficas e ampliação do bombeamento de águas subterrâneas. Apenas tiram a água de um lugar e levam a outro, descomprometidos da necessária reposição do líquido, ameaçando exaurir o que ainda está disponível.

Algum brasileiro já ouviu o plano de recuperação de mananciais, APAs (Áreas de Preservação Ambiental) e APPs (Áreas de Preservação Permanente)? Somente florestas conseguem regularizar o ciclo hidrológico e o regime de chuvas. É a única forma.

E a geração de energia elétrica? Alguém já viu os planos de aproveitamento energético solar e eólico nacionais? Ou ao menos o orçamento que vai finalmente estabelecer as linhas de transmissão que vão ligar as usinas eólicas 100% instaladas e inoperantes do Nordeste? Vamos continuar construindo hidrelétricas sobre as hiper-necessárias florestas?

Sem planos, nem ação, a notícia de "Como o Brasil venceu a crise hídrica" não sai tão cedo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma noção de como entramos na crise hídrica

Uma obra em Alto Santo-CE dá uma boa ideia de como o Brasil rumou à atual crise hídrica. Trata-se de um estádio de futebol, mas com as seguintes características:

  • a obra foi construída com apoio do Ministério do Esporte e empréstimo da Caixa;
  • sua fachada milionária imita o Coliseu Romano;
  • sua arquibancada comporta 20.000 pessoas;
  • Alto Santo possui 16.000 habitantes (não 'fecham' a arquibancada);
  • o gramado, irrigado diariamente há mais de 5 anos, ainda aguarda o pontapé inicial;
  • para erguer o estádio foi preciso aterrar um dos três açudes que abastecem a cidade;
  • os dois açudes que sobraram estão com volume baixo e ameaçam deixar a população sem água;
  • Alto Santo não possui time de futebol.

Obra está em andamento há cinco anos (Foto: Juscelino Filho/GLOBOESPORTE.COM)

Referências:

  • http://www.istoe.com.br/reportagens/384562_UM+COLISEU+NO+SERTAO
  • http://g1.globo.com/ceara/noticia/2014/07/prefeitura-aterra-acude-para-construir-coliseu-do-ceara-em-alto-santo.html
Coordenadas: 5° 30' 57,66" S  38° 16' 03,30" W


sábado, 26 de julho de 2014

Deuses da Chuva

'E novos baianos passeiam por sua garoa' é o que nos conta a música Sampa, onde Caetano Veloso narra um pouco dos costumes da cidade grande na década de 70. A garoa paulistana era uma chuva de gotículas tão finas que flutuavam ao vento, sem tocar o chão. Não havia guarda-chuva que protegesse desta água que não vinha de cima, mas pelos lados. Já há algum tempo essa garoa só aparece em letra de música.

Caetano Veloso não mencionou outras águas além da garoa, tampouco outros compositores paulistas o fizeram: a água não aparece no Trem das onze, de Adoniram Barbosa, no Lampião de gás, de Inezita Barroso, nem em Rapaziada do Braz, de Francisco Petrônio. São São Paulo do Tom Zé, cita o banho, mas de mar, e lá no Rio de Janeiro. A profusa Tema de São Paulo de Billy Blanco, do famoso 'vambora, vambora, tá na hora', sem água alguma. Vê-se que os compositores não deram bola prá água, assim como os planejadores do espaço urbano e os políticos.

Se à água não foi dado valor, que dizer das florestas! Quem imaginaria que da distante Amazônia vinham os rios voadores, responsáveis por chuvas frequentes e generosas na Região Sudeste? Sem essas águas, a portentosa megalópole se tornou dependente das frentes frias antárticas. É que o solo da região macrometropolitana de São Paulo, de tão alterado, afetou drasticamente o ciclo hidrológico, hoje reduzido a chuva e escoamento superficial. Componentes importantes, como a evapotranspiração das florestas... Ah, como estão fazendo falta as árvores tombadas na base da Serra da Cantareira, nas matas ciliares de rios e represas, trocadas por condomínios, indústrias, pasto...

Os desequilíbrios causados ao ciclo hidrológico passaram desapercebidos por muito tempo, porque ainda haviam florestas por todo o Estado de São Paulo, por todo o Brasil. Além disso obras e mais obras implantaram adutoras que garantiram o pleno abastecimento de cidades em contínua expansão, ao mesmo tempo em que fortalecia a confiança em soluções de engenharia arcaicas, do tipo 'traz-água-de-lá-pra-cá'. Alguns exemplos dessas obras:
  • Promoveu-se o represamento e desvio das águas vindas das cabeceiras mineiras em Camanducaia e Extrema, formando-se o Sistema Cantareira. Este sistema não previu que cidades como Piracicaba e Jundiaí cresceriam vertiginosamente e passariam a disputar cada metro cúbico deste escasso recurso hídrico;
  • Um projeto mais recente contempla a transposição das águas do distante Rio Ribeira, a 80 km da Estação de Tratamento de Água mais próxima (ETA São Lourenço). A obra é cara, mas o volume de água captado servirá apenas para repor o nível de perdas no sistema de distribuição atual. Mas com a crise no abastecimento, esse projeto ficou em segundo plano;
  • Nesta crise hídrica, projetos emergenciais visam trazer águas mais à mão, como as do Rio Paraíba do Sul, necessárias a outras tantas cidades, como o Rio de Janeiro, que também sofrem os efeitos da seca.
São Paulo, que mantém a economia e o desenvolvimento do Brasil, precisa desesperadamente de água. E a solução novamente recai em soluções 'traz-água-de-lá-para-cá'. E como fica a produção de água, mediante o replantio de árvores em áreas estratégicas como as matas ciliares?

É chegado o momento de colocar as cartas na mesa. Por exemplo, precisamos mesmo da Usina Hidrelétrica de Belo Monte? Precisamos mais de sua energia elétrica ou da evapotranspiração das florestas que pretendem inundar? Florestas na Amazônia asseguram os rios voadores que trazem chuva aos mananciais da maior economia brasileira...

Em sua música SampaCaetano Veloso cita os 'deuses da chuva', mas não explica como a 'força da grana que ergue e destrói coisas belas' conseguirá refazer as florestas e os biomas naturais, que poderiam trazer chuva à economia e ao desenvolvimento de nossa nação.