Caetano Veloso não mencionou outras águas além da garoa, tampouco outros compositores paulistas o fizeram: a água não aparece no Trem das onze, de Adoniram Barbosa, no Lampião de gás, de Inezita Barroso, nem em Rapaziada do Braz, de Francisco Petrônio. São São Paulo do Tom Zé, cita o banho, mas de mar, e lá no Rio de Janeiro. A profusa Tema de São Paulo de Billy Blanco, do famoso 'vambora, vambora, tá na hora', sem água alguma. Vê-se que os compositores não deram bola prá água, assim como os planejadores do espaço urbano e os políticos.
Se à água não foi dado valor, que dizer das florestas! Quem imaginaria que da distante Amazônia vinham os rios voadores, responsáveis por chuvas frequentes e generosas na Região Sudeste? Sem essas águas, a portentosa megalópole se tornou dependente das frentes frias antárticas. É que o solo da região macrometropolitana de São Paulo, de tão alterado, afetou drasticamente o ciclo hidrológico, hoje reduzido a chuva e escoamento superficial. Componentes importantes, como a evapotranspiração das florestas... Ah, como estão fazendo falta as árvores tombadas na base da Serra da Cantareira, nas matas ciliares de rios e represas, trocadas por condomínios, indústrias, pasto...
Os desequilíbrios causados ao ciclo hidrológico passaram desapercebidos por muito tempo, porque ainda haviam florestas por todo o Estado de São Paulo, por todo o Brasil. Além disso obras e mais obras implantaram adutoras que garantiram o pleno abastecimento de cidades em contínua expansão, ao mesmo tempo em que fortalecia a confiança em soluções de engenharia arcaicas, do tipo 'traz-água-de-lá-pra-cá'. Alguns exemplos dessas obras:
- Promoveu-se o represamento e desvio das águas vindas das cabeceiras mineiras em Camanducaia e Extrema, formando-se o Sistema Cantareira. Este sistema não previu que cidades como Piracicaba e Jundiaí cresceriam vertiginosamente e passariam a disputar cada metro cúbico deste escasso recurso hídrico;
- Um projeto mais recente contempla a transposição das águas do distante Rio Ribeira, a 80 km da Estação de Tratamento de Água mais próxima (ETA São Lourenço). A obra é cara, mas o volume de água captado servirá apenas para repor o nível de perdas no sistema de distribuição atual. Mas com a crise no abastecimento, esse projeto ficou em segundo plano;
- Nesta crise hídrica, projetos emergenciais visam trazer águas mais à mão, como as do Rio Paraíba do Sul, necessárias a outras tantas cidades, como o Rio de Janeiro, que também sofrem os efeitos da seca.
É chegado o momento de colocar as cartas na mesa. Por exemplo, precisamos mesmo da Usina Hidrelétrica de Belo Monte? Precisamos mais de sua energia elétrica ou da evapotranspiração das florestas que pretendem inundar? Florestas na Amazônia asseguram os rios voadores que trazem chuva aos mananciais da maior economia brasileira...
Em sua música Sampa, Caetano Veloso cita os 'deuses da chuva', mas não explica como a 'força da grana que ergue e destrói coisas belas' conseguirá refazer as florestas e os biomas naturais, que poderiam trazer chuva à economia e ao desenvolvimento de nossa nação.